Questão de cultura


Há algum tempo venho observando e registrando alguns fatores culturais envolvidos nas relações cliente x fornecedor, empresa x empregado, etc.

Semana passada, enquanto estava em Belo Horizonte e participava de uma apresentação sobre desenvolvimento ágil e scrum para um cliente americano aqui da Stefanini - a HNI Corporation – percebi o quanto esses fatores influenciam em nosso trabalho e principalmente na adoção de um aproach ágil para o desenvolvimento de software.

Vamos começar com essa imagem, que acredito que todos já devem ter visto em alguma apresentação sobre desenvolvimento ágil:

O Iceberg do Scrum

Quem está acostumado a falar sobre agilidade sabe que ela representa a visão de um processo ágil e sua adoção, onde temos:

O topo do iceberg, que representa o que todo mundo vê no scrum como mais importante,

  • Processos – Ciclo, cerimônias, etc;
  • Papéis – Product owner, Scrummaster, Time, etc;
  • Ferramentas – Kanban, gráficos, etc

E a parte de baixo do iceberg que representa o que realmente importa e abrange um processo ágil,

  • Auto gerenciamento;
  • Comprometimento de todos;
  • Comunicação aberta;
  • Mudança cultural.

Desde o ano de 2008 tenho feito muitas apresentações sobre agilidade para os mais diversos públicos, desde equipes de desenvolvimento até CIOs e CEOs de empresas aqui no Brasil. Essa imagem do iceberg reflete muito o nosso cenário para adoção de agilidade. Quando falamos sobre a avalanche de mudança cultural que uma abordagem ágil oferece para a empresa todos ficam bem preocupados (principalmente executivos).

O que me chamou muita a atenção no caso da HNI é que eles viram a realidade diária deles na parte de baixo do iceberg. Ao final da apresentação o CIO da empresa nos disse bem animado: “Fantástico, já temos toda a base do iceberg e nem sabemos o que é Scrum. Agora só precisamos pensar em como e onde utilizarmos o processo para melhorar mais os nossos projetos”. Confesso que fiquei chocado…

Depois de ter digerido um pouco melhor a apresentação e seu impacto, cheguei a conclusão (meio que óbvia), de que o mercado brasileiro ainda precisa de um bom tempo para acreditar em desenvolvimento ágil e implementa-lo de fato. Hoje, temos uma cultura no desenvolvimento de projetos de software que está muito longe de ser colaborativa e auto-gerenciável.

Se pensarmos em nossos modelos de contratação – podemos começar vendo a questão sobre RFPs – já podemos ver que a coisa toda é direcionada para desviar dos problemas, antes mesmo de que aconteçam. Quase ninguém está interessado em fazer software com qualidade, porque a área ainda é tida como “buraco negro” das empresas, que só sugam recursos e não devolvem nada.

A verdade é que a grande maioria das empresas pensa no Scrum apenas como mais uma oferta de serviço: “Está na moda, então vamos botar no menú e ver o quanto vende…” Poucas pessoas e empresas estão interessadas na mudança cultural que é inerente a agilidade, como: Tratar profissionais como pessoas, incentivar o auto-gerenciamento, abolir o comando-controle, abrir mão da visão industrial de software, etc.

A questão é muito mais séria e complicada do que pensamos, pois as diferenças culturais são realmente muito grandes e pesadas. Estou pensando seriamente se um dia saberemos no mercado brasileiro o que é agilidade de verdade. É necessário abrir mão de muita coisa que se vê como essencial para aproveitar o valor dos princípios ágeis.

Esse pensamento me leva a algumas questões, quase que existenciais como:

  1. O que precisamos fazer para ser ágeis de verdade no Brasil?
  2. Como incentivar mudanças culturais nas empresas e provar que elas trazem resultados melhores do que as abordagens tradicionais?
  3. Como destruir o enraizamento de um modelo de mais de anos num país como o Brasil?
  4. Como convencer executivos sobre auto-gerenciamento num país onde profissionais ainda compram atestados médicos para não serem descontados por uma falta?

Em minha opinião, ainda temos muitas questões que precisam ser formuladas e respondidas.

Até a próxima, grande abraço !!!

André Nascimento